segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Mãos esticadas


A vida por lá parecia simples, incapaz de deixar marcas. Trabalhe, trabalhe, trabalhe, supere a saudade. Seja bem-vindo à felicidade passageira, que acenava, sumia, e voltava mais brilhante logo em seguida.

Essa cena já fazia parte do filme. Jovem, era capaz de passar pela breve parte baixa da montanha russa. Aquilo não era suficiente para derrubá-lo. Era? Tinha 24 anos. Não era. Mente sã, corpo são. Vamos ganhar dinheiro e tratar de cumprir os objetivos, pois o jornalismo lhe espera a 9 mil quilômetros de distância.

Soava doce: "chico periodista...", proferida por um senhor que lutou contra Jorge Videla e as mazelas da ditadura argentina. O velhote, depois de 27 anos, entregava pizza, lavava o chão e contava, com certo exagero, como conseguia ser daquele jeito. 

Certa vez, disse que tudo ficaria bem, que era preciso seguir firme e forte. O futuro jornalista aceitara os conselhos. Mas não pediu nada. Nunca pediu que lhe esticassem a mão. Nem lá, nem aqui. 

Era forte o bastante para trabalhar, como se fosse uma máquina sem necessidade de manutenção. Como se isso passasse por cima das marcas que ficavam. Marcas deixadas por uma série de fatos.

E a vida pós-exílio se desenrolou dessa mesma forma. Nunca teve apenas um trabalho. Eram dois, três. Pode ter errado na medida. Provavelmente errou.

Imaginou, até com certa ingenuidade, que após o longo trajeto, descrito nas páginas negras deste blog, não existiriam mais recaídas. Nem as mais breves. 

Não. As pequenas marcas, juntas, tornaram-se grandes, uma só. Agora, era como se já fosse uma parte do corpo. E a montanha russa deixou de ser montanha, deixou de ser russa. Era plana, lá embaixo.

Estava tudo guardado, sempre esteve. E marcas pequenas, para piorar, continuaram sendo constantes. 

Vive agora por mais mãos esticadas. Como se todas lhes servissem. E provavelmente servirão. Como aquelas do velhinho argentino. Que lhes deram, sem qualquer solicitação, força numa época difícil de 2006. 

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