quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Saudade daquele tempo. Saudade?

As velhas cenas me vêm à cabeça pelo menos uma vez por dia. E olhe: nunca estive com a mente tão cheia. As lembranças daquele tempo, no entanto, se encaixam e, compactas, trazem à tona os velhos capítulos da história.

Período tão essencial e necessário para chegar até aqui. Período descartável em alguns aspectos. Responsável por lembranças que chegam, misturam, chacoalham, confortam, machucam e cravam no peito uma saudade de tudo que foi vivido um dia.

Já percebeu como a gente teima em ter saudade? É sempre assim. Nunca há felicidade plena. Há sempre resquício de um tempo em os momentos alegres pareciam mais reais, mais vivos, mais intensos. Saudade que nem sempre mereceu chegar a tal status.

Primeiro são as avenidas largas. Estou em uma delas agora. Dirijo um carro automático sonhando com avenidas apertadas e um milhão de pisadas na embreagem. Aqui não tem trânsito, lá tem. Prefiro, pois, carros e mais carros. Monóxido de carbono na cabeça.

Depois, a casa sem muro, com lago no fundo. Lago? Para quê? Sou mais um pombal de dez andares cravado entre milhares de outros edifícios.

Na frente, um gramado, um balanço e três carros parados. Quero asfalto. Asfalto! Não precisa de carro. Encaro ônibus, lotação, carona e bicicleta.

Agora, as praias. Como são insossas. Entoo em pensamento os versos de Gonçalves Dias. Pois são dignos, retratam a mais pura verdade: "as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá".

São 6h45. Entro no trabalho às 7h para lavar 300 carros até a meia-noite. Há somente uma fita no rádio capenga do carro velho. Ele toca sempre as mesmas três músicas. Me levam de volta para o Brasil. Bastam.

No quarto, há um mapa da metrópole de 19 milhões de habitantes. A metrópole onde nascera e fora criado. Não quero país com 51 estados. Não curto cidade com quatro ilhas e metrô a cada esquina. Não quero. Quero as minhas três linhas decapitadas, sem a mínima conexão e condição.

Percebeu?

Que tal ensinar a si próprio a viver o presente? Só ele basta.

Perder tempo com saudade do passado é roubar tempo de si mesmo. Tempo que não volta. Tempo que é preciso viver de um jeito ou de outro lá na frente. E quase sempre é necessário vivê-lo em forma de saudade.

Se for pra ter saudade, tenha de um tempo que ainda não passou. Zere a vida. Arranque do peito a saudade do passado.

Um comentário:

  1. Diego, lindo seu texto!! Fiquei emocionada ao lê-lo, vc o escreveu com primazia.Parabéns! Tenho muito orgulho de vc! Te amo! Mamãe

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