Já queimei o dedo soldando alto-falantes numa linha de produção. Primeiro emprego. Era ano 2000. Em 2001, limpei uma chapa de hambúrguer em menos de 30 minutos. Parecia que eu tinha nascido para ter marcas de queimaduras nos dedos.
No ano seguinte, aprendi a equilibrar 12 copos numa bandeja e entendi a diferença entre os verbos can e may. No mesmo ano, enchi sozinho um contêiner de móveis de quem nunca tinha visto na vida. Arrebentei a mão com uma marreta na hora de quebrar pisos. Aprendi também a manusear uma máquina de cortar azulejos. Certa vez, pintei uma mansão num bairro nobre de Orlando. Não recebi pagamento por isso. Um imigrante chamado Hélder fugiu com o dinheiro.
Em 2003, meu ofício era vender cabos e fios elétricos. Já sabia indicar a amperagem de disjuntores. Explicava aos clientes de uma grande rede de material de construção como descobrir a potência de aparelhos domésticos.
Em 2004, eu lavava 300 carros por dia e convivia com 20 latinos durante 17 horas. Dirigia todos os carros, de todas as marcas. O chefe do local lembrava todos os dias que todos ali "deram errado" na vida e que para eles só sobrara mesmo o exílio. Descobri com falar "como vai" em crioulo. Havia lá dois haitianos fugidos da miséria. Os venezuelanos, esses fugiam de Hugo Chávez. Um cubano pisou nas areias de Miami e ganhou cidadania (como se ele não fosse cidadão do mundo).
Em 2005, aspirava bancos e assoalhos de carros. Achava muita coisa de valor esquecida pelos turistas endinheirados. Devolvia todas. No mesmo ano, o chefe filha da puta foi mandado embora e me escolheram para o lugar dele. Sofri discriminação de uma russa ao limpar as lixeiras do balcão de clientes.
Em 2006, checava filtros de óleo de carros novos que eram devolvidos às fábricas. Longe dali, bati o recorde de entregas na pizzaria de um brasileiro gente boa. Ao lado do irmão, também gente boa, contava como acompanhara as glórias do Clube de Regatas do Flamengo -- como a final do Brasileirão de 1980. Lá pelas 23h, ainda dava tempo de lavar louças de um dia inteiro de movimento.
Em 2007, virei chefe dos drivers da mesma pizzaria. Antes, tinha um argentino maluco também por lá. Com ele, aprendi a história de luta da América Latina e as glórias do futebol portenho -- principalmente a vitória do Racing sobre o Celtic, em 1967. O argentino velhinho e cabeludo me chamava de “chico periodista”.
Em 2008, voltei às salas de aula após 8 anos. Aprendi muito com pessoas bem mais jovens do que eu. Sem estágio na área, tive que saber de cor todas as especificações de buchas, parafusos, cofres e maçanetas. Vendia com extrema destreza mesas, cadeiras e utensílios de cozinha. O local era o mesmo de 2003. Único estudante de jornalismo de lá, escrevi para a revista interna da loja.
Em 2009, um estúdio de televisão era meu habitat. Aprendi a mexer num ponto eletrônico, e ganhei frieza para trabalhar sob pressão. Lidei também com um mundo bem distante da minha própria realidade. Vi cenas que certamente não sairão da minha cabeça. Ao mesmo tempo, comecei a escrever sobre o esporte mais incrível desse mundo.
Em 2010, cobri 21 jogos da Copa do Mundo. Escrevi sobre as obras do Mundial 2014. Fiz também reportagens sobre arquitetura e projetos com pré-moldados.
Em 2011, iniciei uma nova fase, com novos trabalhos, todos relacionados ao futebol. Trabalhei como comentarista em três finais de campeonato.
Hoje, após viver 25 anos em 10, afirmo que ainda não sei nada. Não sei o que é a vida. Simplesmente porque Ela é totalmente imprevisível.
No ano seguinte, aprendi a equilibrar 12 copos numa bandeja e entendi a diferença entre os verbos can e may. No mesmo ano, enchi sozinho um contêiner de móveis de quem nunca tinha visto na vida. Arrebentei a mão com uma marreta na hora de quebrar pisos. Aprendi também a manusear uma máquina de cortar azulejos. Certa vez, pintei uma mansão num bairro nobre de Orlando. Não recebi pagamento por isso. Um imigrante chamado Hélder fugiu com o dinheiro.
Em 2003, meu ofício era vender cabos e fios elétricos. Já sabia indicar a amperagem de disjuntores. Explicava aos clientes de uma grande rede de material de construção como descobrir a potência de aparelhos domésticos.
Em 2004, eu lavava 300 carros por dia e convivia com 20 latinos durante 17 horas. Dirigia todos os carros, de todas as marcas. O chefe do local lembrava todos os dias que todos ali "deram errado" na vida e que para eles só sobrara mesmo o exílio. Descobri com falar "como vai" em crioulo. Havia lá dois haitianos fugidos da miséria. Os venezuelanos, esses fugiam de Hugo Chávez. Um cubano pisou nas areias de Miami e ganhou cidadania (como se ele não fosse cidadão do mundo).
Em 2005, aspirava bancos e assoalhos de carros. Achava muita coisa de valor esquecida pelos turistas endinheirados. Devolvia todas. No mesmo ano, o chefe filha da puta foi mandado embora e me escolheram para o lugar dele. Sofri discriminação de uma russa ao limpar as lixeiras do balcão de clientes.
Em 2006, checava filtros de óleo de carros novos que eram devolvidos às fábricas. Longe dali, bati o recorde de entregas na pizzaria de um brasileiro gente boa. Ao lado do irmão, também gente boa, contava como acompanhara as glórias do Clube de Regatas do Flamengo -- como a final do Brasileirão de 1980. Lá pelas 23h, ainda dava tempo de lavar louças de um dia inteiro de movimento.
Em 2007, virei chefe dos drivers da mesma pizzaria. Antes, tinha um argentino maluco também por lá. Com ele, aprendi a história de luta da América Latina e as glórias do futebol portenho -- principalmente a vitória do Racing sobre o Celtic, em 1967. O argentino velhinho e cabeludo me chamava de “chico periodista”.
Em 2008, voltei às salas de aula após 8 anos. Aprendi muito com pessoas bem mais jovens do que eu. Sem estágio na área, tive que saber de cor todas as especificações de buchas, parafusos, cofres e maçanetas. Vendia com extrema destreza mesas, cadeiras e utensílios de cozinha. O local era o mesmo de 2003. Único estudante de jornalismo de lá, escrevi para a revista interna da loja.
Em 2009, um estúdio de televisão era meu habitat. Aprendi a mexer num ponto eletrônico, e ganhei frieza para trabalhar sob pressão. Lidei também com um mundo bem distante da minha própria realidade. Vi cenas que certamente não sairão da minha cabeça. Ao mesmo tempo, comecei a escrever sobre o esporte mais incrível desse mundo.
Em 2010, cobri 21 jogos da Copa do Mundo. Escrevi sobre as obras do Mundial 2014. Fiz também reportagens sobre arquitetura e projetos com pré-moldados.
Em 2011, iniciei uma nova fase, com novos trabalhos, todos relacionados ao futebol. Trabalhei como comentarista em três finais de campeonato.
Hoje, após viver 25 anos em 10, afirmo que ainda não sei nada. Não sei o que é a vida. Simplesmente porque Ela é totalmente imprevisível.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirVocê é mais um vencedor. Vai longe.
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