quinta-feira, 27 de outubro de 2011

As árvores da Fradique

Ele ainda não sabia contar. Só olhava para cima e contemplava a maior árvore da rua. Boca aberta, fascínio puro e o olhar fixado em uma das copas que entravam por entre os fios elétricos.

Nessa época, maio de 1986, a rua Fradique Coutinho enfileirava uma árvore atrás da outra. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete. Daí para mais. Só na saída do prédio onde morava eram duas, uma de cada lado.

Copas grandes, que além de estender uma bela sombra na calçada larga, serviam para transformar a rua num pisca-pisca grandioso durante o mês de dezembro.

Havia pedaços de rabiolas também enroscados às copas e aos fios. Se havia rabiolas, havia crianças. Pinheiros, na década de 1980, era repleto de crianças. E olha que se havia árvores em demasia, crianças eram muito mais. Umas 20 por árvore só naquele trecho da calçada larga. Quando estreitava, prestes a chegar à rua Teodoro Sampaio, sumiam as árvores e as crianças.

Ali, onde a calçada ficava estreita, era o limite determinado pelo pai. A criança não sabia contar, tampouco podia transpor a barreira da calçada larga.

Com quatro anos, o menino usava o espaço permitido para pedalar sua tonquinha laranja. Isso ocorria quase sempre aos domingos antes do almoço, lá pelo meio-dia, quando o sol fincava as luzes nas entranhas das copas. O encontro transformava a paisagem na mais bela da história da Fradique. Sentado na tonquinha, contemplava.

Deu cinco pedaladas, que foram turbinadas por uma sandália marrom grudada nos pedais azuis. Não era possível, no entanto, nem com a poderosa sandália, alcançar o irmão mais velho. Este que já estava quase no limítrofe onde não havia árvore e nem criança, à beira da Teodoro Sampaio.

Por um momento, esquecera das copas das árvores. Era mais fascinante o mistério que o outro lado exercia sobre a cabeça que não ainda não sabia contar, só contemplar. Era necessário alcançá-lo para tentar. Quem sabe ali, ao lado do seu companheiro maior, o pai o deixasse alçar voo.

Não.

- Já é uma hora. Vamos almoçar na tua tia. Vamos agora - disse o pai.

A cabeça vazia perdoaria a interrupção, afinal haveria outros domingos para a façanha. Não perdoaria, contudo, se soubesse que dali a três meses a família mudaria para um bairro distante, no qual não era possível usar tonquinha para chegar à fronteira.

Mais arborizado e calmo, o bairro fez com que o limite da Fradique fosse esquecido. Fora guardado, contudo. Eis que 25 anos depois, as cenas daquele maio de 1986 vieram à tona. Desceu do ônibus, atravessou a Fradique, a Cardeal e ficou de frente para a árvore de copa grande.

Num tempo em que a cabeça não para, parou.

Não sabia mais contar, como se fosse 1986. Sabia, de novo, contemplar. E contemplou. Viu a tonquinha, o irmão e, lá no fundo, a barreira. A quinta-feira insossa e escura se transformou em domingo meio-dia. A sombra tomava toda a calçada larga da Fradique.

O barulho do motor do ônibus, porém, o trouxe de volta a 2011. O limite já havia sido ultrapassado há tempos. E pálido, esquecido. Se soubesse o que o esperava do lado de lá, às margens da Teodoro Sampaio, teria ficado a vida inteira entre as árvores da Fradique e as 20 crianças para cada copa grande. Teria tentado alcançar o irmão. Só alcançar. Dariam meia-volta e esqueceriam o desafio.

O limite foi superado. E agora, sem contemplar nada, a cabeça cheia voltou a contar. Uma, duas e três. A Fradique tem três árvores.