O pedaço de papel estava dobrado em quatro partes desde a década de 40. Nunca mais fora aberto. Envelhecido, era apenas um no meio de uma centena. Hoje, o calhamaço está numa caixa retangular de mogno, entocado no armário de um apartamento da zona oeste de São Paulo.
A intenção não era achar o tal caixote de mogno. Fazia frio na capital paulista e era preciso mais um cobertor para suportar o vento gelado que passava pela fresta da janela velha. Não havia cobertor. Esticou o braço, puxou a caixa e segurou o calhamaço nas mãos. Tirou o elástico que agrupava os envelopes e escolheu uma das cartas.
A folha dura foi, enfim, desdobrada. Bastou apenas uma passagem rápida com os olhos para perceber a importância daquilo. Sem elas, provavelmente, nem ele estaria ali. Letra miúda, linhas quase desconexas, texto em 2ª pessoa. Era poesia pura escrita há 63 anos por uma bela jovem de 19 anos.
“A esperança caminhava sempre à frente porque eu confiava nela. Mas você, meu amor, não vieste e chorei de desgosto. Fiz planos e mais planos. Mas tudo não há de ser nada. Temos muito pela frente”.
Fazer previsão ali era quase impossível. A jovem estava em Lins. O namorado, a 400 km, servia ao exército. As visitas pouco ocorriam e era preciso esperar.
Esperou-se.
A carta foi escrita em 11 de outubro de 1948. Juntaram-se definitivamente seis meses depois e dali a três anos, em 23 de dezembro de 1951, casaram-se na cidade de onde as cartas foram escritas.
Os filhos vieram na sequência: 1952, 1956 e 1959. Depois, vieram os netos. Oito. O amor, intacto, perdura até hoje e é visto todos os dias nos olhos verdes da senhora de 82 anos. Basta dizer o nome do companheiro de tantos anos.
- Vó, que dia você e o vô casaram?
- Não lembro, querido. Estou muito velha.
- (......)
- Que falta seu avô faz, né?
Se faz para o neto, imagina para ela. Ele a deixou há seis anos. Para sempre, pelo menos nesta vida. Não há esperança, tampouco um calhamaço registrando a saudade desses seis anos. Ela espera. Espera, como se fosse 1948.
Talvez nunca mais ninguém volte, como hoje, a dar a importância que foi dada às cartas escritas por ela. A história de amor verdadeiro tem registro, caso a memória falhe. Servirá de exemplo, certamente. É amor que ensina, que dita o ritmo das atitudes, que faz acreditar.
A carta é envolta novamente ao elástico. O caixote de mogno é guardado no armário. Agora, com conhecimento, repleto de poesia.
Ainda faz frio.
“Mas tudo não há de ser nada. Temos muito pela frente”.
quarta-feira, 29 de junho de 2011
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