A bicicleta surrada riscou a avenida Francisco Morato naquele setembro de 2001. O horário, 22h25, era o limite para que o jovem de 19 anos, de pernas ainda finas e peladas, cruzasse a via esburacada, chegasse à Rebouças e encostasse a velha bike no poste da lanchonete de maior movimento da cidade. Os olhos arregalados e inocentes denunciavam. Era uma nova fase. Era tudo diferente. Desde a família desmembrada e do novo lugar para morar, até a distância dos estudos e a escassez do sorriso antes farto.
O adolescente começara, meses antes, a faculdade de engenharia. Apenas começara. As mensalidades não cabiam no orçamento falido da família. O resultado seria lépido: cancelamento da matrícula na universidade de ‘M’ vermelho, exílio do pai e irmão mais velho na ‘terra da oportunidade’ e nova aptidão para gerir contas da família mutilada – que, agora, só contava com a mãe e a irmã mais nova. A realidade fora escancarada a ele. Estendida assim, sem anestesia, sem vaselina.
O ‘M’ não era mais vermelho. Era amarelo. Não havia mais esquadro, transferidor, nanquim, compasso, calculadora. O momento era de relação estreita com esfregão, balde, panos, espátula - os novos utensílios de manejo. Aprendeu rápido. Fritou hambúrgueres, limpou chão, lavou louça, separou batata, tirou o lixo. Virou gente, virou homem. Conheceu a realidade brasileira de salário irrisório e falta de informação inerente à duríssima realidade. Como Alex conseguia sustentar a filhinha recém-nascida com aqueles R$ 1,60 por hora? Como Hugo iria casar com Viviane dali a 3 meses? Como Ricardo e Anderson eram tão felizes na hora de limpar a chapa?
Aprendera todo dia. Com Alex, a ser o melhor caixa daquele balcão de 8 caixas registradoras. Com Hugo, a saber a quantidade certa de Big Macs vendidos a cada minuto. Com Ricardo e Anderson, a enxergar felicidade onde não existia. Viraram todos colegas de trabalho na madrugada de São Paulo.
Voltemos, no entanto, ao início da história, pois a bicicleta já estava amarrada no poste e ainda era preciso pôr o tênis preto gorduroso, a calça bordô sem bolso, a camisa xadrez, a gravata sem nó, e o boné avermelhado – a única coisa que gostava naquele vestuário de gosto duvidoso. O jovem entrou na lanchonete. A feição do grupo, contudo, apontava que aquela noite não seria um dia normal de trabalho.
- Assassinaram o Ricardo - disse Hugo, sempre centrado.
Os olhos correram a cozinha na maior volúpia. O procurado era Anderson. Fora ele, amigo de longa data, que indicara Ricardo ao gerente da lanchonete na época das contratações, quatro meses antes.
- Ele se envolveu com uma menina daqui da loja. O ex dela foi atrás. Deu treta. Já era, ele tá morto – explicou, com a voz e a cabeça baixa.
Ricardo entrara para a extensa lista de vítimas da violência em São Paulo. Era mais um número. A realidade era aquela. Grana curta, suor, saudade. Sem hipérbole: REALIDADE. E essa realidade, o jovem da bicicleta não queria mais. Não seria mais fácil, pois, seguir os passos do pai e do irmão e tentar o exílio por pelo menos um ano? No Brasil, eram apenas R$ 210 por 30 dias de serviço.
- Aqui você tira 2 mil dólares limpo – dizia o pai, com os pés cravados há 13 meses no estado da Flórida, território estadunidense.
Era a chance de voltar a estudar e conseguir ajudar financeiramente a mãe e a irmã. Passaporte, visto, passagem. Tudo estava à mão em apenas dois meses. E ali, 90 dias após o assassinato de Ricardo, o jovem tomou um novo rumo: justamente à terra onde o ´M` amarelo surgiu.
Dizem que a aversão ao capitalismo começara nesta época. No aeroporto, no balcão da lanchonete, na dificuldade, na pedalada pela Francisco Morato, no conhecimento da dura realidade, na abdicação, na separação. Aversão justificada pela causa sentida na veia. Subiu no avião, prendeu o choro e alçou voo. Aquilo era preciso. Arriscar era preciso. Viver também. Mais do que nunca.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
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